quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"Esses coelhos reproduzem como coelhos"

Passeando o polegar direito nervoso pelo controle-remoto da TV, deparei-me com um programa que falava das maravilhas do Portugal rural, com estalagens, passeios, culinária (isso não poderia faltar) e as curiosidades de uma terra que se revela somente àqueles que têm a dádiva de lá estar, mesmo que seja por pouco tempo. Lá pelas tantas, a charmosa apresentadora mostra o interior de uma casa simples, na qual a dona criava uns coelhos. Até aí nada de mais para um lugar onde é fácil encontrar em cada vitrine de restaurante esse simpático bichinho exposto e bem resfriado esperando o pedido do próximo cliente: "Um coelho no churrasco, se faz favor!" O extraordinário foi o que saiu da boca da dona da criação, talvez querendo impressionar a equipe de televisão, ou mesmo deitada em sua primitiva inocência: "Esses coelhos reproduzem como coelhos". Isso me fez pensar a tarde toda até escrever esse post. Não consegui chegar a nenhuma conclusão sobre o hermetismo da frase; talvez esse hermetismo seja a mais clara clareza, se me permitem. Coelhos que se reproduzem como coelhos, na sua obviedade redundante, mostra uma sutileza da linguagem na qual o primeiro "coelho" da frase tem um sentido denotativo (próprio) e o segundo, um sentido conotativo (aquele que representa um elemento de comparação com o que é próprio). Ou seja, os coelhos daquela senhora são comparáveis aos coelhos que se reproduzem (como qualquer coelho que se preze), porque são muitos; por isso têm que ir para a panela enfeitar os restaurantes de todo o Portugal, o rural e o urbano, para a nossa sorte.

4 comentários:

  1. Acho interessante nesta situação, que o desaparecimento do sujeito no discurso faz emergir o que Foucaut chama de o "ser da linguagem", ou o "ser-linguagem". Agora é a palavra quem fala não mais o sujeito.Neste caso, ao contrário da Idade Clássica, onde a linguagem funcionava como meio para conhecer as coisas, evidencia-se o fato de que as palavras não dizem as coisas, não a representam, nem as significam.
    Mas, procurando ser prático, eu penso que naquela situação específica o sentido dado a frase "Esses coelhos reproduzem como coelhos", é o mesmo talvez dado as "galinhas caipiras", ou seja aqueles coelhos se reproduzem sem hormônios...etc...

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  2. Boa, Joaquim!!! Sempre bom revisitar "Les mots et les choses"! Acho que não nos libertaremos do Foucault tão cedo! (rsrsrs) Isso pode ser uma condenação ou uma constatação; em qualquer dos casos, temos q aproveitar. Não tinha pensado sobre os hormônios, mas isso é uma boa questão! Obrigado pelo comment! Abraços

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  3. Tb tô seguindo esse blog que tá bombando!! kkkkkkkkkkkkk

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  4. Obrigado, Cunhada! Nunca tive vocação pra pastor, mas acho q estou começando a formar um rebanho!!!! bjss

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