quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A difícil arte de catar piolhos e lêndeas


Na minha infância, era comum depois do almoço as mães, tias e avós pegarem os moleques que estavam sem fazer nada pela casa, enfiá-los entre as pernas e começar a catação de piolhos que atormentavam muitos lares. Era uma tarefa particular (ocorrendo dentro de casa; no quarto por exemplo), mas também poderia ser pública, quando éramos catados em frente às nossas casas. Essa exposição de nossas fraquezas era um alto grau de humilhação, pois alguns de nossos colegas que passavam pela rua presenciavam aquela cena vexatória e sempre davam um jeito de encarnar na gente. Sem contar aquela menininha bonitinha que estávamos quase ganhando, mas nos via naquela situação e não queria mais papo com moleque piolhento. Mal imaginávamos que até essa beldade era carregada de piolhos e lêndeas. E mesmo com tal confirmação, pois sua mãe também expunha a filha aos olhares alheios, sendo catada na própria calçada, não aceitávamos tão horrendo fato. Curioso é que essa difícil arte de catar era eminentemente feminina – dom que Deus teria dado apenas às mulheres amazônicas por imitação das atividades higiênicas de alguns primatas. A maior artista que vi (e senti atuando na minha própria pele, no couro cabeludo mesmo) foi minha avó materna (Lucimar). Ela era daquelas que pegavam o caboco onde quer que ele estivesse, e nem abria espaço para reclamação. Com todo amor e carinho, ela fazia um esfregaço inicial em nossas cabeças, que era pra fazer aparecer toda a horda: os “bois” ficavam indomáveis e as lêndeas mais recônditas eram obrigadas a aparecerem, quando os dedos ágeis da velha catavam impiedosamente aqueles bichinhos. Ao menor sinal de rebelião da criança, Lucimar reinava um cocorote macio no moleque, ao som de seu “rum!!! uhm-uhm”. Era a senha para ficarmos quietinhos. A operação continuava em paz e, depois de dezenas de seres devidamente espocados à unha (uns piolhos até jorravam sangue), éramos libertados daquele suplício, mas estávamos livres para brincar ou fazer o dever de casa. Pena que essa arte está decadente, muito por causa do comércio de produtos que prometem acabar com os piolhos em uma semana. Só balela! Elas não conheceram a grande artista Lucimar, que nunca usou óculos para atuar, mas livrou uma geração de netos de saírem por aí voando pelos cabelos.   

6 comentários:

  1. Excelente texto... quero deixar aqui meu apoio a campanha pela legalização da profissão d catadoras de piolhos(e lendeas)... e queria tb, deixar claro, meu total desaprovo ao uso de medicamentos que prometem acabar cm essas manadas do dia p/ noite.. isso é um desrepeito ao arduo trabalho das avós e maes que vivem a tentar despiolhar seus babuinos(filhos)..rsrs..
    A melhor parte do texto: “rum!!! uhm-uhm”...rsrs

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    1. Há pessoas que vão de casa em casa profissionalmente remover piolhos com uma máquina chamada LOUSBUSTER. Pelo que entendi, eles realmente fazer dinheiro muito bom. Você pode ler sobre ele aqui. http://mundosinpiojos.com/en/

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  2. Podicrer, Re!!!!! Lucimar teve vários bordões; aos poucos vou soltando por aqui!!! Sobre o apoio à velha profissão, vms fundar um sindicato das ex-catadoras d piolhos! Q tal???? Obrigado pelo comment!!!

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  3. Quero um livro com os bordões da Dona Lucimar, ela tem um linguajar tão atual!.....rs

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  4. Pôxa! nostalgia mesmo! Ahh..., a D.Lucimar era do mesmo quartel que a General Filoca, as "sirigaitas" se viam nas "unhas" dessa! rsrs.

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  5. Ihh, Re, agora vou ter q me lembrar de um monte; talvez saia até um dicionário de lucimês!!!
    Itala, lembro bem das "sirigaitas" e do velho Canguela penando por causa do inxirimento dele na janela, assobiando pra elas!!! Bons tempos. Aliás, deverá rolar um lance da Osvaldo, ou mais!!!! rs

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